Toda boa história começa em uma taverna, mas ninguém disse que essa será uma boa história.
A nossa aventura começava, na verdade, diante dos enormes portões de ferro encravados na muralha que protege a grande cidade de Baldur's Gate. O portão encontrava-se selado com dezenas de soldados tentando conter uma multidão que queria asilo na cidade. Do lado de fora, ouviam-se os gritos de socorro das mulheres, o choro assustado das crianças e a súplica dos homens.
- O que esse povo está gritando no portão? - questionou Hilda, enquanto observava o portão com um olhar preocupado. A mulher era alta, de longos cabelos ruivos e torso nu, que carregava um machado de duas mãos preso às costas com a facilidade de quem carrega uma pluma.
- Minha rainha, pelo que ouvimos, a cidade deste povo simplesmente desapareceu do nada - explicou Al'samir. O vendedor de joias calishita ajeitou o turbante ornado de gemas, fazendo tilintar os diversos anéis que ostentava sobre as vestes de seda nobre. — Eles estão apenas buscando um lugar seguro.
- Como uma cidade pode sumir? - Hilda coçou a cabeça - Al'samir, será que conseguiríamos dar asilo a essa povo no meu reino?
- Minha rainha, o reino de Alsaria é grande e poderoso, mas ainda é jovem para conseguir dar apoio a tanta gente. Não me entenda mal, para meus negócios isso seria uma maravilha, mas a logística para administrar isso...
- Como posso me tornar a heroína do povo e protetora dos fracos se não consigo ajudar quem precisa?
- A Dona Hilda é a melhor rainha do mundo! - comemorou empolgada a pequena Lina, apoiada sobre o ombro da Hilda enquanto lambia um pirulito. - No meu mundo, só daríamos doces para eles e todos ficariam felizes!
Uma risada baixa e desdenhosa cortou o entusiasmo da garota. Mudarãm, o drow devoto de Shar, segurou o seu símbolo sagrado enquanto encarava a multidão com manifesto desprezo.
- Criança tola. Acha que tudo se resolve com doces? A perda é parte inerente da existência. Não devemos intervir na ordem natural do universo.
- Sim, sim... Além disso, temos um objetivo especifico aqui - interveio Sam, oculto sob um manto e uma máscara que cobria o seu rosto.
- Seu esqueleto, o que viemos fazer aqui mesmo? - perguntou Lina.
Buscando dentro da sua bolsa couro de pergaminhos, o Sam puxou uma carta:
- Lina, lembra que pela manhã recebemos uma carta do chefe do grupo militar desta cidade? Viemos aqui saber como podemos ajudar.
- Eu vim para fazer negócios - pontuou Al'samir, erguendo o dedo. - Não trabalho para obras de caridade.
- Al'samir, nem tudo se resume a moedas e jóias. Lembrem-se que tenho diversos objetivos aqui, e o principal é buscar recursos para tornar meu reino um lugar perfeito para todos.
- Neste exato momento, meu objetivo seria uma caneca de cerveja e um bom espeto de rato assado - murmurou Kwene. A meia-orc falou com sua voz baixa, porém firme, inclinando a cabeça na direção da entrada. - Mas já que estamos aqui, vamos logo entrar nessa torre de pedra.
Kwene não esperou por uma resposta. Tomando a frente do grupo, a meia-orc avançou em direção à guarita da guarda. Hilda a seguiu de perto, sorrindo e acenando para os refugiados como se estivesse em um desfile real, enquanto Lina, ainda no seu ombro, dava tchauzinhos entusiasmados com seu pirulito.
Sam acenou com o pergaminho oficial para o sargento da guarda, cujos olhos se arregalaram ao reconhecer o selo do comandante. Com um gesto apressado, o soldado ordenou que abrissem a porta da torre de serviço.
Conforme o grupo adentrava na torre de pedra, Mudarãm limpou uma poeira imaginária da sua armadura de couro, resmungando sobre o odor do local, e Al'samir observava tudo com um ar de nojo exagerado. A porta de ferro bateu atrás deles com um estrondo retumbante, trancando o caos do lado de fora e mergulhando os aventureiros no ar frio e silencioso do interior da fortaleza. A jornada dos aventureiros estava, oficialmente, prestes a começar.